E então as conversas que pude manter durante a graduação não eram mais as conversas que eu deveria manter na pós-graduação, mais precisamente no mestrado em filosofia. Não quero precisar, sinceramente, o período em que tais fatos ocorreram; mas posso dizer imprecisamente que a graduação se deu durante a segunda metade da década de 2000 e a pós-graduação se deu justa e curiosamente durante a primeira metade da década de 2010.

Corri com a graduação, já tinha cursado todas as disciplinas necessárias para findar o bacharelado em filosofia no tempo mínimo, 4 anos, e começar o mestrado no ano seguinte; por acaso, porém, ou porque fora reprovado pelo próprio orientador na entrevista para o mestrado, visto que já havia alguém em mente para a vaga, acabei prolongando a iniciação científica por mais seis meses, embora tais seis meses já estivessem no cálculo total que amontava a dois anos de iniciação científica bancada por um conselho nacional.

Poderia dizer que o mestrado foi financiado por uma fundação de amparo, e já muito digo; já muito está dito para um autor de blog que quer manter sua anonímia.

O ponto era, e também já o era o caráter aforístico deste, que na pós-graduação, obviamente, as coisas ficaram mais sérias; as pessoas que antes eram divertidas num sentido expansivo e aberto do termo, de repente tornaram-se divertidas profissional e socialmente, e com isso quero dizer que passaram a ser pessoas socialmente profissionais; cabia agora a elas manter e cultivar as aparências, pois, afinal, o que estava em jogo era e é, para eles, um plano de carreira. Interessava-me, porém, a filosofia e seu caráter perguntador.

Isso com o tempo, porém, fez com que portas se fechassem, com que se desenrolasse uma certa neurose investigativa, que tentava pôr no papel uma intuição, desenvolta, desenvolvida sob a túnica de uma seriedade acadêmica que presumia uma erudição que todos sabíamos que eu não tinha, e que quase ninguém tem.

Assim, para usar palavras que por demais já me identificam, o resultado de meu mestrado, alongado durante 3 anos e 10 meses, algo horrendo, ficou “abaixo das expectativas”. O que estava no papel, aquelas sessenta e vinte e cinco páginas eram pura enrolação, ou má versificação de uma questão que não existia, pois se tratava de defender que o verbo e a noção filosófica de “ser” não são co-extensivos em relação ao verbo e à noção de “existir”. Pior, tratava-se da tentativa velada, que às vezes eu tentava esconder, às vezes deixava transparecer, de desconstruir “a noção ocidental de existência”.

No fim, queria eu mostrar, de maneira erudita e acadêmica, que “o problema da existência”, no sentido da pergunta, “como se prova que algo existe (de fato)?”, era, no fundo, uma pseudo-questão, pois não se pode provar que algo “existe”, porque “a noção de existência” e “o valor existencial” do verbo “existir”, ou do verbo “ser”, não passam de uma alucinação que a mera etimologia desmonta de pronto.

O verbo “existir” nada mais é que o verbo “estar” mascarado pelo prefixo latino “ex-”, que significa “a partir de”. O próprio verbo grego que corresponde a “ser”, significa, no mais das vezes, “estar” e também “viver”. A questão de Hamlet, crânio do bobo da corte em mão, significa apenas “viver ou deixar de viver?”; ou o que Camus disse mais tarde sobre o suicídio ser a única questão filosófica.

Em meu caso, e já estou pronta, e contrariamente à minha vontade original, aqui identificado pelas tácitas referências acima, não queria falar sobre o assunto.

Falar sobre o assunto, porém, é o que me resta para o prosseguimento de minha existência, o que mais simples e apropriadamente deveria ser dito e tido como seguir a vida.